Enquanto isso, em outros carnavais...
Imagine que você tenha que escrever uma poesia sobre aquela menina sinistra que você pegou no carnaval. Não aquela que fez todo mundo pensar que você tinha sucumbido ao lado sombrio, gordo e fedorento da força. Aquela que você pegou escondido e não contou pra ninguém. Afinal, se até sua consciência riu, imagina o resto do mundo. Só colocou no placar pra contar vantagem. Apesar das dezoito latas de cerveja pra dar coragem, você lembra bem. Apesar de tentar esquecer todos os dias. O nome dela você também lembra, mas como tinha 15 sílabas, fica difícil achar uma rima.
Por onde você começaria? Pelo suave aroma de bacalhau que saía das entranhas da criatura? Pelos diálogos emocionantes? “Se tu me der um beijo, ganha uma cerveja de graça”. Talvez, mas só talvez mesmo, desse pra começar pelos olhos. Mas você não lembra a cor porque temeu olhar diretamente pra eles e virar pedra. O cabelo, nem pensar. Porque na hora, você teve a clara impressão de estar pegando o Carlinhos Bala. Credo. Não acredito que escrevi isso. Agora é capaz de você ter um pesadelo. Mas pelo menos você não estaria vendo o jogo de ontem.
Pois bem. Escrevi tudo isso pra vocês se colocarem no meu lugar, senhores leitores. De onde eu vou tirar inspiração pra escrever sobre a partida de ontem? Do gramado protótipo de caatinga? Do goleiro colombiano com ímã nas luvas? Das madeixas de Nino Rapunzel? Tô fora. Prefiro pensar sobre aquela menina sinistra que você pegou no carnaval de mil novecentos e bolinha. Aquela mesmo que era o símbolo do carnaval, tipo a morena globeleza. Só que era do carnaval de Bezerros. Simbolizava tão bem que nem precisava de máscara pra desfilar nos papangus. Ah, você continua negando este fato obscuro da sua vida de folião? Eu também: eu não vi o jogo de ontem, eu não vi o jogo de ontem, eu não vi o jogo de ontem.
A regra é clara
Prometo construir Educação. Gerar Educação. Investir em Educação. Educar a Educação. Cuidar da Educação. Organizar a Educação. Aplicar em Educação. Olhar pra Educação. Divulgar a Educação. Incentivar a Educação. Levar a Educação pra passear. Ninar a Educação. Tudo isso com muita, mas muita Educação mesmo.
Talvez você não lembre. Mas esse é um discurso de Cristovam Buarque reproduzido na íntegra. Em 2006, quando a disputa pela presidência da República ficou entre o picolé de chuchu e o metalúrgico mensaleiro, nosso simpático Gargamel das letras desistiu da carreira de líder do país. Faltava educação nos debates. Não suportava os pleonasmos, vícios de linguagem, e principalmente, erros de concordância. Se “a gente” podia concordar com “vamos”, porque um candidato não podia concordar com o outro, oras?
Beleza, Pedro. Já me fizesse ler dois parágrafos desse texto sem pé nem cabeça e até agora, nada de futebol. E pra completar, você começa a falar consigo mesmo na terceira pessoa, o que é, no mínimo, um sinal de esquizofrenia. Quem você acha que é? John Nash, de “Uma Mente Brilhante”? Não é bem por aí, respondo eu. Se bem que nossa conversa dos próximos parágrafos tem muito a ver com Matemática. Na verdade, falei de Cristovam Buarque porque descobri que ele acaba de ser eleito presidente. Não da República, mas da Federação Pernambucana de Futebol.
Isso não faz sentido, ô leseira. É claro que faz, minha cara dupla personalidade. Deixa eu mostrar os fatos. Sabe a nova fórmula do campeonato pernambucano? Sei, e daí? Foi o Cristovam que inventou. Pra ele, existe um motivo maior pelo qual a Educação está defasada no país. Qual? Simples: o povo brasileiro só pensa em futebol. Continuo sem entender. Calma, ainda não terminei. Agiliza, cara. Desse jeito, nenhum leitor vai chegar ao fim do texto. Eu mesmo já estou ficando com sono. Eita sujeito impaciente, esse tal de “eu”. Nunca vi.
Voltando ao assunto: Cristovam Buarque arrumou um jeito de fazer sua revolução educacional. Se o brasileiro só pensa em futebol, o jeito é ensinar Matemática através dele. Álgebra, Trigonometria, Funções, tudo embutido no esporte bretão. Duvida? É só ver o regulamento que ele inventou. São três grupos, com quatro times. Na primeira fase, os times se enfrentam. Na segunda, os times do interior são remanejados para os outros grupos. Depois tem um hexagonal com tudo misturado.
O próximo passo é mudar o sistema de pontuação. Em vez de valer 3 pontos, uma vitória vai valer uma dízima de 3,333... O campeão é quem atingir um número de pontos proporcional à raiz quadrada do logaritmo de 400x + 32y. Onde x e y são apenas letras do alfabeto pra atrapalhar suas contas. E a gente já começou bem. 4 x 0 no Salgueiro. Ou 16/4 x 0. Ou 32/8 x 0. Não é o máximo, cara? Zzzzzzz. Pedro? Zzzzzzz. Pedro! Zzzzz.
Achou absurdo? Absurdo mesmo é um campeonato sem clássicos no primeiro turno.
Tic Tac
Um segundo.
A distância que separa
a bola e o gol.
O campeão e o vice-campeão.
O recorde e o comum.
Um mínimo segundo
representa o limite entre
o sofrimento e a redenção.
A lágrima de tristeza e a lágrima de alegria.
Um momento para ser lembrado e um momento para ser esquecido.
Só mais um segundo.
É o que a gente pede
antes do jogo acabar com o placar adverso.
Para o goleiro alcançar aquela bola indo pro ângulo.
Quando o atacante precisa dominar uma bola difícil.
Em um segundo, tudo pode mudar.
O sim do juiz validando um pênalti dura um segundo.
O não de um jogador importante machucado dura um segundo.
Um segundo.
É o que define se você
perde ou ganha o título.
Lamenta ou comemora.
Desiste ou tenta vencer seus limites.
Em 2008, você vai viver 31.622.400 novos segundos.
Pense bem o que fazer com cada um deles.
Um abraço a todos, e até ano que vem.
E vai rolar a festa
De longe, dava pra ouvir. A batucada sinistra, tirada de um pagode da outra geração tomava conta das ruas de Caxias de Sul. Havia quem jurasse que o som terrível era uma conexão direta com algum festival de música do inferno ou algo parecido. Mas, não. Vinha de um galpão abandonado, onde se reuniam personagens ilustres. Potrancas de meia-idade, bêbados a la Jeremias, vendedores de enciclopédias e a comissão técnica de um certo time vermelho e preto.
O baile, ou festa, ou balada, ou câmara de tortura estava bem animado. O trio elétrico não pode vir, mas trataram logo de suprir sua falta com um karaokê. Enquanto isso, na pista, a azaração rolava solta. Todo mundo tratava logo de se arranjar.
- Vai lá, Magrão.
- Pra onde, rapaz?
- Vai lá naquela morena.
- Qual delas? A Dominatrix do pântano ou a irmã do Jotalhão?
- A de verde. Não tira os olhos de você.
- Deve estar me achando exótico. No planeta dela não tem ninguém que pesa menos de 200kg.
- Oxe, e não era você que tava pegando tudo?
- Só as bolas, ué...
- As bolas, hein? Hummm...
De saco cheio daquela piada infame e mais ainda daquela situação adiposa, digo, embaraçosa, Magrão fez jus ao próprio nome e saiu de fininho. Foi bater no bar.
- Amigo, me vê uma cerveja.
- Pois não. Tsssss...
- Putz, mas isso tá quente.
- Tá tudo assim, senhor.
- Não tem nada gelado aí não?
- Tem esse café.
A coisa tava feia. Pior ainda. Tava feia, gorda e desdentada. Só tinha baranga. A bebida era uma mistura de uréia e ácido úrico. A música já tinha passado de “Marrom Bombom” e tinha chegado numa versão remixada de Titanic em ritmo de samba. Mas Carlinhos Bala estava adorando aquilo tudo. Também, depois de tanta lapada de cana Tubarão, ele já devia estar em Bagdá a uma hora dessas.
- Amigôôô! Garçççççom! - e nada do garçom aparecer.
- Ô DUALIB! - na hora apareceu alguém – DESCE MAIS UM AÍ.
- Tá maluco, Carlinhos? E o jogo amanhã?
- Que mané jogo, rapaz.
- Contra o Juventude, esqueceu?
- Eu não. Mas com certeza, vai ter um monte de gente querendo esquecer.
Palavras de Geninho, após perder o jogo: “o time jogou em ritmo de fim de festa”. Bem, pra ter jogado tão incrivelmente mal daquele jeito, só sendo uma festa dessas aí.
Saudacciones rubro-negras
Yo no sei ustedes, mas después do vareio contra el Cruzero, yo já estoy con las malas prontas para la viaje pelas Americas. Y como ustedes pueden ver, já estoy treinando mi portunhol. Caso non saibas hablar tao bien como yo, tengo a solucción. Señoras e señores, yo apresento El Fantastico Diccionario Aurelio del Portunhol. Un guia perfecto para los torcedores del León da Ija usarem durante la Copa Sudamericana. Separei alguns verbetes que podem ser muy úteis. Por ejemplo:
Aabajo – nomenclatura de posição, para descrever o lugar de alguma coisa.
Ex: El Santa Cruz está abajo, muy abajo.
Ai ai ai! - interjeição muito utilizada pelos latino-americanos, depois de algumas doses de tequila ou depois de levar algumas tesouras do Bia.
B
burrito – comida típica do México ou característica de personalidade.
Ex: Esquema de fraude via hotmail? És un burrito, Edinho.
C
cabrón – o mesmo que juiz.
O
Olé – cumprimento típico dos torcedores do Sport aos times adversários
S
Sombrero – enorme chapéu mexicano. Serve pra proteger do sol ou esconder o cabelo, se você for o Carlinhos Bala.
T
Taco – expressão típica, derivada do português (Taco a peste! Taco a murrinha! Taco baralho!)
Tequila – bebida para comemorar as vitórias. Ou então, motivo para xingar os jogadores de cachaceiros.
Pois é, galera. Encontro vocês em La Bombonera.
PS: Gostaria de pedir desculpas aos leitores pelo grande intervalo sem publicar. Tô numa correria enorme aqui, e infelizmente, só dá pra comentar quando tem jogo. Espero que me compreendam.
Um pra mim, um pra você.
Do jogo deste domingo, só consigo apontar uma falha: o Sport foi com o uniforme reserva. Afinal, se era pra ser um jogo de compadres, como disse meu compadre lá do blog do Atlético, era melhor ter ido com o uniforme titular. Aí ficava todo mundo rubro-negro no meio do campo, tocando a bola pra lá e pra cá, até o juizão (que também devia usar rubro-negro) apitar o final. Um pontinho pra mim, um pra você. Nada mais justo, nada mais sem graça.
Vou te contar uma coisa: ir pra Curitiba e voltar no 0 x 0 com tanta mulher bonita por lá é um desperdício. Aliás, desperdício é uma coisa que nosso ataque entende muito bem. As chances foram poucas, é verdade. Mas tem gente que consegue se sair melhor com bem menos. O lendário Zé Galego, alvirrubro mais chato do mundo, conseguia ficar com as meninas mais gatinhas da festa usando as cantadas mais cretinas do universo. Algo como “Eu te quero mais que dinheiro”. Já Carlinhos Bala, de cara pro gol, dá uma cabeçada troncha daquela.
O ponto positivo (no singular mesmo, já que foi empate) foi a nossa defesa. Tava mais fácil passar uma luva de boxe por dentro de uma narina do que passar um Ferreira pela zaga do Sport. Até o Gustavão velho e gordo de guerra jogou bem. Quem viu o jogo pôde acompanhar uma reprise da falange espartana de 300, ou a formação tartaruga dos legionários romanos de Gladiador. Os mais empolgados diriam até que nossa defesa não ficou devendo nada ao trânsito da Domingos Ferreira na hora do rush.
O fato é que não aconteceu muita coisa na Arena da Baixada. O único estádio do mundo onde os jogadores nunca deram a volta olímpica. Não que o Atlético não ganhe nada. Mas é porque não faz sentido saudar um buraco no meio da arquibancada. Vai ver é arquitetura moderna mesmo. O estádio em “C” deve ser uma homenagem ao “C” de Clube Atlético Paranaense. Deve ser algo cubista, sei lá.
Agora, nosso time vai ter um longo intervalo pela frente. Tempo suficiente pra treinar bastante finalização. Aí quem sabe eu não aproveito pra treinar minha finalização também e arrumo um jeito de arrumar um fim melhor pra esse post.
Ghostbusters
Tem gente que faz reza braba. Compra incenso. Mata até boi. Mas para a felicidade de toda a nação rubro-negra e de toda a nação bovina, o Sport resolveu espantar o fantasma do rebaixamento jogando bola. Talvez não por coincidência, um dos maiores responsáveis pela subida de produção no último jogo tem a maior cara de pai-de-santo. Baba Chola que se cuide. Carlitos Bala, ou melhor: Chico César de Ogum vem aí e o bicho vai pegar. Se bem que esse tal de bicho não pega é nada comparado ao que está pegando o Magrão.
O entrosamento do time tem méritos nessa reação. Se cada jogador já sabe onde está o companheiro dentro do campo, fora dele também. Por exemplo: domingo, Durval já sabia onde Everton estava. Assistindo uma coletânea de episódios do Padre Quevedo, claro. Assim como o resto do time. Só desse jeito pra terem aprendido a espantar o fantasma da segundona tão bem. Aliás, o Fantástico parece ser o programa preferido do Sport. Os Caçadores de Mito ensinaram, a gente aprendeu. Olha só quanto mito a gente desbancou:
“Futebol é uma caixinha de surpresas”.
Tá, e o monte de gente segurando aquelas plaquinhas de “Eu já sabia” no fim do jogo?
“Quem não faz leva.”
Inter 0 x 0 Sport. Preciso dizer mais alguma coisa?
“Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.”
O cara que inventou essa frase não conhecia Magrão. Senão, teria dito “Água mole em pedra dura, tanto bate até que desiste e se conforma em empatar dentro de casa.”
Não sei se é por causa do Halloween se aproximando, mas a última semana foi repleta de mal-assombros. Primeiro foi essa história de fantasma do rebaixamento. Depois, decidiram desenterrar um assunto que já morreu faz tempo. Mais precisamente, há vinte anos, em 1987. Um tempo em que havia favorecimento aos times do eixo Rio-São Paulo. Um tempo em que a cartolagem rolava solta, beneficiando interesses escusos. Um tempo em que criaram um campeonato cheio de arbitrariedades, excluindo até o Vice-campeão do ano anterior. Um tempo que, pelo visto, não mudou muito. Na verdade, a única coisa que eles querem, de fato, mudar, é em benefício da covardia.
“Futebol é decidido dentro do campo.”. Taí um mito que nem o Padre Quevedo, nem os Caçadores de Mito conseguem acabar. O Flamengo fez jus ao seu maior símbolo da época, o Galinho de Quintino, e se comportou como uma galinha assustada. E covardia não vale prêmio em canto nenhum do mundo, quanto mais um título brasileiro. O time deles era melhor? E daí? O Brasil já perdeu dos Estados Unidos. Queria ver o Framengo ganhar da gente aqui dentro, com 50.000 vozes empurrando. Aliás, muita gente queria ver. O grito de torcida “eu vim aqui só pra te ver” foi calado, amordaçado pela insegurança e pela pequenez, ironicamente, do time de maior torcida do Brasil.
As regras do campeonato eram malucas? E daí? O Vasco podia muito bem ter se negado a jogar contra o São Caetano, em 2000. Que nada. Encabeçado (e que cabeça) por Juninho Pernambucano, foi lá e venceu com honras. Já vi o Sport vencer os três turnos do campeonato e ainda ser obrigado a jogar a final. Nem por isso, deixou de jogar. Então por que raios o Flamengo se achou no direito de burlar as regras? É aceitável sonegar imposto mesmo que a gente não saiba pra onde vai o dinheiro? É permitido estacionar em fila dupla mesmo que não tenha estacionamento? É correto fazer justiça com as próprias mãos? No meio de tantas dúvidas, só uma coisa é certa: O Sport Club do Recife é o Campeão Brasileiro de 1987.
Eu não quero nem ver
Mas se você quiser muito ver, segure o botão esquerdo do mouse e arraste até embaixo.
“Oxe, cadê o texto”? Talvez esta tenha sido a primeira pergunta que você fez quando entrou aqui. Se não foi, pode ter sido “Cadê o texxto, maluco?”, “Cadê a treta, mano?” ou ainda “Cadê esse trem?”. Porque é bem provável que você seja flamenguista, corintiano ou atleticano. Todo mundo doido pra vir aqui e dizer: tá vendo? Foi falar do meu time e agora tá aí caindo pelas tabelas. O pior de tudo é que eles tem razão.
Na verdade, tive uma sensação parecida durante o jogo. “Oxe, cadê o futebol do Sport?”. Sumiu? Que nada. Foi-se embora pro Qatar, pra São Paulo, pro Rio Grande do Sul e pra todos os cantos que abduziram os melhores jogadores do time. O que sobrou foi só o R.O. Não o famoso “resto de ontem”, tão bem-vindo nos almoços de segunda-feira. Mas um primo dele. O “Ruim, Orroroso”, que consegue ser pior do que o próprio erro de português intrínseco em sua definição.
Geninho ainda conseguiu dar uma tapeada por uns tempos. Bota um molhinho por cima. Dá uma misturada. Mas não tem jeito. Por mais que você tente, não dá pra tirar leite de pedra. Quanto mais, qualidade de um Rosembrick da vida. Haja erro de passe. Parece até que não explicaram direito as regras do jogo. “Ahhh, não é pra tocar a bola pra galera de branco?”. Só pode. Se você acha difícil explicar a regra do impedimento pra sua namorada, está reclamando de boca cheia. Experimenta explicar pro Carlinhos Bala, que eu quero ver.
Nessas horas, não dá nem pra apelar pra todos os santos. Até eles estão contra a gente. São Paulo mesmo veio pra cá pegar um solzinho das três da tarde e de quebra, ainda levou nossos três pontos. Ê santo metido à besta. Já saiu comemorando o título. Até parece que já ganharam alguma coisa. Só porque estão 15 pontos à frente do segundo, tem mais vitórias, mais saldo de gols e a defesa menos vazada de todos os tempos.
Momento difícil é apelido. O nome próprio mesmo é situação apocalíptica calamitosa. Gostaria até de aproveitar o ensejo para me oferecer como blogueiro de todos os times que joguem contra Corinthians e Goiás. Porque do jeito que as coisas vão, torcer só pro Sport não vai adiantar. Até porque ninguém sabe quando vai ser nossa próxima vitória. Apesar de tudo, a torcida não precisa se preocupar: jogo que vem eu prometo usar minha camisa da sorte, sentar no mesmo lugar da Ilha e perder a voz pelo time. Tenho certeza que tudo vai voltar ao normal.
Convocação
O time não anda lá muito bem das pernas. Mas do coração, o torcedor vai muito bem, obrigado. Mesmo quem está bem longe aqui da terrinha, não perde a chance de acompanhar o Leão. Isso é o que a gente vai ver aí embaixo, no relato da rubro-negra Natasha Granja, atualmente morando no Rio. Ela enfrentou trânsito, distância, fila e uma multidão de 20.000 pessoas torcendo contra pra ver o último e fatídico jogo no Engenhão. Pelo Sport tudo, né?
Eram quatro e meia da tarde do verão carioca e eu estava em pé em um trem todo quebrado ao lado de uma turba de torcedores do Botafogo. Foi exatamente nessa hora eu percebi o quanto eu amava o Sport. Que outra mulher iria se submeter a viajar de tão longe, sacolejando em um metrô e um trem cercada de alvinegros cantando pagode só para dar um apoio ao Leão em pleno domingo?
Originalmente, o jogo seria no Maracanã, mas foi transferido para o novo estádio do Botafogo – o Engenhão. Valeu a vista: o lugar é lindo, dá uma ótima visão do campo, tem cadeiras novas e... ei, olha lá a jovem. Minha vó tem razão, os pernambucanos vão dominar o mundo: em todo lugar a gente encontra um. Ou uns. Ou pelo menos uns cem, que foram dividir comigo a glória de ver o time do coração jogando fora de casa.
Mas o Botafogo não estava com medo do Sport não. O medo do Botafogo era o Cuca. E foi com medo do Cuca pegar que a torcida compareceu em peso. Foi bonito de ver, a torcida alvinegra em peso, cantando... que é que eles estão cantando? Como?? Ei, Botafogo, vá você tomar naquele canto! Vá vaiar a mulher da vida que lhe pariu, ô povo malcriado. E cala a boca, porque o Sport entrou em campo. Ou pelo menos deve ter entrado, porque eu não vi nada com o grupo de cocotas tirando foto feito turista japonês sentados bem na minha frente. Ô, pessoal, o campo é ali na frente. Vocês não erraram de torcida não?
E ai começou o jogo. Pelo que pareceu, a intenção de Geninho era marcar e fazer gol nos contra-ataques. Mas não foi bem isso que a gente viu, não: a rede rubro negra balançou logo nos primeiro minutos, pra delírio da torcida alvinegra. Lúcio Flávio, o atacante com nome de ator pornô porto-riquenho comandou o Botafogo que reinou em campo no primeiro tempo.: toda vez que ele pegava na bola e entrava na pequena área, meu coração gritava “Ô, Leão, tu vai deixar é?”.
Na cabeça, só o filminho do jogo anterior, na Ilha: Botafogo ganhando, Sport virando, até acabar naquele três-a-três aos 48 do segundo que até hoje não me desceu. Mas não teve grito, não teve cazá cazá que acordasse o Leão, que só foi esboçar reação no fim do primeiro tempo, correndo atrás do prejuízo. Foi bonito de ver, mas o que é bonito mesmo, que é gol, teve não.
Segundo tempo começado, coração batendo rápido. Mas a história se repetiu: aos 4 minutos, Juninho (putz, como tem Juninho nesse futebol né?) chutou forte, Luciano Almeida pegou o rebote e a rede do Sport gemeu de novo. Cinco minutos depois, quem gemeu foi o autor do gol: Luciano saiu de campo chorando com o pé fazendo um ângulo esquisito com a perna. Na minha frente, alguém falou: a gente perde, mas quebra um. Ô, gente, maldade.
Três minutos depois, o Botafogo colocou mais pressão: novamente Lúcio Flávio, o Latin Lover do Engenhão, cruzou pra Dodô que não deu chance pra Magrão: de novo, a rede balançou. E foi um tal de gente xingando, gente jogando a camisa no chão, gente dizendo que era roubo, só não tinha gente chorando porque rubronegro não chora.
O resto do jogo foi morno. O pessoal indo embora (os cocotas entre eles, graças a Deus) e eu sentadinha no mesmo canto. Só saio daqui depois de ver um gol do Leão, porque eu não enfrentei um metrô, um trem, uma horda de botafoguenses me mandando tomar no cu pra ir embora asssim não, rapá. Tenho um compromisso com o Sport. Vamos ver se o Sport tem comigo e faz o de honra, né?
Aos 38, quase sai outro do Botafogo. Mas o que é do Sport, ninguém tira: a gente perde, mas perde de cabeça erguida. E foi aos 40 minutos que Dutra recebeu, ajeitou bonito e cruzou pra Reginaldo, que completou para as redes. Se passou na TV (e se passou, alguém manda pra minha mãe?) vocês me viram la, pulando feito uma doida, quase que sozinha no meio daquele estádio lotado de inimigos. Aquele minuto foi meu, só meu, e a meia dúzia de rubronegros que acreditaram até o fim no nosso time.
Fim de jogo. Resultado? Três a um, uma cabeça doendo, um estômago revirado de um cachorro-quente mal digerido, garganta seca de gritar e um orgulhão de ser Sport no peito. Pois é, a gente perde uma vez ou outra, mas pelo menos continua rubronegro. Pior seria ganhar e ser alvinegro pro resto da vida ;)
Beijinhos pra vocês,
Natasha Granja
Aproveito o ótimo texto para convocar vocês a dividirem o blog comigo. A partir do próximo jogo, mande uma história contando suas experiências durante a partida para blogdotorcedorsport@gmail.com . Pode ser uma tiração de onda, um desabafo ou até mesmo alguma coisa engraçada que tenha acontecido (na torcida, sempre tem umas figuras). Lembrando que o pessoal do Globoesporte pediu para censurar os palavrões. O melhor texto, eu publico aqui e dou todos os créditos. Pode ser que eu tenha a sorte do Capitão Nascimento e ache um substituto pra mim.
Fugindo da tesoura (e da degola)
Não foi por falta de aviso. “Corta o cabelo, rapaz”. “Faz essa barba”. Depois de um tempo, começam os questionamentos. “Tá deprimido?”, “Marília te deu um pé na bunda?”, “Entrou pro fã clube dos Los Hermanos?”. Aí vem a fase das piadinhas. “Virou um caminhão de gilete ali na esquina”, “É verdade que você tira coelho da sua barba?”. Essas coisas todas. Será que um sujeito não pode simplesmente deixar a barba crescer em paz, ora bolas? Muita gente importante foge do barbeiro. O presidente Lula. Sócrates. Até a Heloísa Helena tem um bigode de sopa.
O problema é que você acaba entrando em crise de identidade. De repente, deixei de ser Pedro pra virar um monte de gente. “O Náufrago”, “Capim Cubano”, “Batistuta”. Pode escolher. Mas quando uma velhinha crente pára você na rua e pede a benção, talvez, esteja na hora de cortar o cabelo. “Meu filho, você está a cara de Jesus”. Nem dei bola. Pelo menos, até ontem. O dia em que vi o milagre da ressurreição do Botafogo bem diante dos meus olhos.
A Estrela Solitária, que mais parecia uma estrela cadente, resolveu parar de cair e deu um baile no no Sport. O gol no começo do jogo foi o retrato de um time que já entrou em campo derrotado, num 3-6-1 covarde. Se o brilho de uma estrela demora anos-luz para chegar à Terra, mais tempo ainda demora pra Geninho perceber que o esquema com três zagueiros não dá certo.
Na Bíblia, Pedro negou Cristo por três vezes. Eu, que não fujo à regra do Pedro mais famoso, também duvidei várias vezes do Sport. Foi preciso ressuscitar Romário, Atlético, Alexandre Gallo, Náutico, e agora, Botafogo, pra finalmente me fazer acreditar. E a via-crúcis só está começando. Vamos ter São Paulo, Inter, Palmeiras e Cruzeiro pela frente. Um caminho pra lá de tortuoso. Acho que essa é a hora de todo mundo pensar em como pode ajudar o time. Eu mesmo já fiz a barba.
Pedro Lazera, pernambucano, 22 anos, solteiro (que Marília não veja isso), jura que é publicitário, passou pelas agências Gruponove e Studiodois. Atualmente é Redator da Aliança Comunicação. Sua primeira palavra em vida foi cazá-cazá. A segunda, campeão.